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ANA ROMÃOZINHO - O conto, o reconto e o narrável

7 MAR - 30 MAR 2019

Ana Romãozinho (1996, Lisboa) foi seleccionada para a presença do MÓDULO no Drawing Room em Madrid tendo sido reconhecido o seu trabalho por muitos coleccionadores como também foi seleccionada para três prémios de desenho, cabe agora a Lisboa poder conhecer o seu trabalho nesta primeira individual no MÓDULO que agora inaugura. O conto, o reconto e o narrável é o título escolhido pela artista para esta exposição que reune uma série de trabalhos em papel a duas e três dimensões.

Sobre a exposição que agora se inicia escreve o artista:

O conto, o reconto e o narrável

Trata-se do cuidado, da atenção e do valor. É o tempo que o olhar dedica às formas, é o ensaio e o exercício constante, é aquilo que é fixado e o que agora vos conto.

As formas não são objetos isolados, ou conceções herméticas, elas são consequência das anteriores e serão a base das que lhes seguirem. São apropriações, motivos e enredos. São personagens, metáforas e hipálages.

Varia a escala, os materiais e os meios, mudam os conflitos, os pontos de interesse e sobretudo as intenções. Repete-se a experiência, reconta-se o conto, num outro momento e num outro espaço.

Ao ritmo de quem faz, refaz e volta para fazer, conta-se o que se viu e o que se fez, joga-se com aquilo que assegura o tempo, a mudança, a memória de quem narra, de conto em conto, a sua obra.

Sobre o trabalho desta artista escreve Carlos Vidal:

AINDA-NÃO-ESCULTURA

  O título deste pequeno texto baseia-se numa interessante ideia de Ernst Bloch. Leva-nos a pensar o híbrido (o que indistingue a pintura da escultura, ou o Caos da Noite e do Dia – para falarmos com os gregos – ou aquilo que na bidimensão é uma espécie de tridimensão em potência) e a origem do visível: constituído pela luz e dialecticamente pela sombra ou, nestas obras de Ana Romãozinho, pela sombra que parece ser o elemento essencial das formas, pois estes recortes são sobretudo (geram) pequenas sombras que nos fazem ignorar a luz que as produz.

  Considera Bloch que a vida mental (seguindo Freud) não se “esgota” no consciente, mas, como não somos pedras, a via do inconsciente pode assomar à superfície (consciente). Não seguindo aqui Freud, para Bloch há um ainda-não-consciente. E, em arte, e nestas propostas da Ana Romãozinho, há “um instante em que uma obra nasce”, sugerindo “a seguinte” (citando-a). Como consequência, é próprio da pintura querer habitar e evoluir para o espaço, conquistar espaço, ainda que sempre dentro da sua “caixa-moldura”. Muda a questão moderna da especificidade disciplinar: a pintura naturalmente aspira ao espaço, nem que seja ao “espaço mental”.

  Mas nestas obras é mesmo de espaço físico que se trata, pelo menos nas 6 “esculturas” (parede do fundo) que formam uma linha ascendente, são “esculturas” ou pinturas volumétricas, considerando-se o papel muito secundário (ou mesmo inexistente) que aqui desempenha a cor. Portanto, neste caso, o que é uma pintura? É uma “ainda-não-escultura”. Aspira ao espaço, à tactilidade (extremamente subtil) e nunca aos contrastes cromáticos, atmosféricos ou retinianos.

  Estas pinturas são objectos (brancos), mas objectos fechados em si mesmos, portanto, são pinturas que buscam o limiar da pintura, mantendo-se sempre nessa fronteira. Ou seja, apesar de mostrarem que há uma linha ténue entre pintura e escultura, essa linha pode ser explorada numa permanente opção por um dos “pólos”: o da pintura, sublinho.

  Num curto e muito interessante texto que acompanha esta exposição, introduz a autora a questão da “narrativa”, do “conto”, pois uma forma bem trabalhada gera outra e outra e outra …… E se uma forma pode gerar outra (inevitavelmente), uma pintura gera (“conta”) uma escultura, embora sempre parietal, em reforço da sua planitude.

  Ora, entre a pintura e a escultura há a “instalação”. E, como escreve Kabakov, a forma inicial da instalação é a pintura ou o objecto de parede. Mas aqui não há objectos, ou melhor, não se representam objectos. O objecto é a própria pintura, constituída por pequenos recortes, padrões que produzem sombras ou se acumulam. Há pinturas que parecem “bolsas” de recortes de outras pinturas (todas as obras parecem remeter-se entre si, para si), e há pinturas que são superfícies ligeiramente “cavadas” e ainda esculturas que parece avançarem para o espaço mas têm na parede o seu suporte seguro.

  Daí a questão da “narratividade”: uma pintura pode narrar uma escultura e esta uma pintura. Resumindo, o que vemos na bidimensão destas obras é um conjunto de experiências subtis em que os seus pequenos relevos mostram sobretudo os limiares não superáveis da pintura. Mostram sobretudo as várias hipóteses de um relevo permanecer bidimensional. As pequenas sombras, em cada obra, são manchas pictóricas.

  As fotografias, por fim, confirmam o pictórico, que é uma arte que escapa à lei da gravidade. Aquilo que paira, paira sem espaço e sem peso. Formas e cores abstractas. Irreais.

Ana Romãozinho tem obras nas seguintes coleções públicas:

Col. Figueiredo Ribeiro, QuARTel, Abrantes

Câmara Municipal de Castelo Branco

e várias colecções privadas em Portugal e em Espanha.