Exposição Actual

Press Release

Que é o geral?
O caso individual.
Que é o particular?
Milhões de casos.

Goethe, Máximas e reflexões


O Coro do Gigante é um conjunto de fotografias realizadas durante as minhas viagens pelos lugares onde pratico a errância no grande labirinto onde se desenha o mundo. Neste sentido, ele é o resultado de vários mapeamentos que se vão acumulando naquilo que denomino depósito: um espaço arquitetonicamente imaginário situado no coração de uma Montanha. Esse espaço é um lugar de abrigo, de culto e de reunião. O que nele é depositado e se estratifica ocupa espaço sem jamais o preencher. É uma espécie de receptáculo infinito que acolhe os caminhos do meu caminhar, que assim se institui como experiência estetizante.

Tal como a Montanha, o meu depósito é um lugar de solidão e contemplação que, como ela, toma a forma do tempo, dela retirando a transcendência do mundano e a escuta da singular musicalidade do vento. É um organismo vivo em incessante transformação que partilha com a Montanha a perenidade monumental da Terra, partilhando com Sísifo a tarefa da implicação no processo que se repete e repete, tendo em conta a certeza do seu fracasso. 

Se a Montanha desde sempre povoou o imaginário do homem, Gaston Bachelard (Terra e os devaneios da vontade) diz-nos que é necessário sonhar levantá-la. Desse sonho, que é um ato da imaginação, nasce a ficção da Montanha e o meu depósito. Ele vai ao encontro da prática da alegoria, tal como a definiu Walter Benjamin (Origem do drama trágico alemão): acumular fragmentos sem qualquer objectivo porque eles encerram a potência criativa que salva as coisas da sua transitoriedade porque as apreende nas imagens que as resgatam.

As minhas fotografias têm o carácter de runas — caracteres usados nos primitivos alfabetos germânicos e escandinavos —, como eles imbuídas de uma estranheza incompleta porque, expressando uma promessa de sentido, tanto reclamam como decepcionam a nossa pretensão de sinceridade quanto ao que significam. Se as classifico como alegóricas é por, através do fragmento que são – através do seu potencial alegórico —, elas representarem a transitoriedade das coisas no tempo congelado que as preserva numa imagem estável. Neste sentido, o Coro do Gigante constitui o índice das figuras confiscadas que deste modo tomam a forma de um atlas, essa forma visual do saber de que fala Didi-Huberman (Atlas ou a gaia ciência inquieta). Não um atlas do mundo mas do meu imaginário, que produz imagens do mundo e que, prescindindo da lógica dos inventários, as reúne no sistema de tensões que constitui o meu depósito e a perenidade que ele vai buscar à Montanha.